Está feito. Entrego o teste de Português… Os Maias vão
evaporar-se da minha mente, pelo menos durante uns dias, acho eu… Aperto o
casaco, ajeito o cachecol e lá vou eu, subindo a rampa que une os pavilhões da
minha escola ao portão. Lá fora já me espera a minha mãe, não convém que apanhe
frio, estou a um passo de apanhar uma pneumonia. Já dentro do carro, os formais
cumprimentos de quem não se vê à hora e meia e lá vamos nós no deslizar das
rodas do carro em direcção aos recados. No hipermercado as pessoas correm de um
lado para outro, eu passo pelas quatro estações do ano, nos congelados o
inverno, na padaria o verão, nos chocolates a primavera e o Outono remete-me á
pequena livraria. Pagamos e outra vez para a máquina da marcha. Sesimbra é a
próxima paragem. Subo as escadas da pequena casa da minha avó e seguro o saco
de plástico que tem o que supostamente seria o meu almoço e passou a ser o meu
lanche, digo adeus e justifico a ausência de um beijo com o medo de transferir micróbios
à já frágil minha avó. Finalmente, próxima paragem: Casa!
Já no calor do meu belo quarto a minha mãe diz-me que vai
passear as nossas três rainhas, as minhas três cadelas. Afinal duraram apenas
minutos até relembrar Os Maias, vem-me à cabeça uma das melhores habilidades de
Eça, a hipalage. E que tal um “cigarro pensativo”? A casa por minutos no meu
poder e mais uma vez fraco à tentação lá subo eu até ao terraço, e pensando na
saúde da minha mãe tiro-lhe um cigarro.
Finalmente sós. Só eu e a Natureza. A mesma manda o vento
cumprimentar-me beijando as mais expostas partes da minha face. Umas belas
festas do vento no meu nariz e na minha testa fazem-me arrepios. Encostado na
parede branca, já escura, derivado da grande humidade presente na minha zona,
encosto o ombro e sinto que estou a mergulhar o úmero no mais confortável e
esponjoso sofá de todos os tempos. Ao som de Rod Stewart penso ao ritmo que os
meus pulmões cospem o fumo que faz-lhes tudo menos bem. Peço-lhes desculpa e
justifico-me com o sabor do fumo na cabeça que me permite estas pequenas reflexões. Lá ao fundo, vejo a metrópole a suar fumo e pó, justificado pelo caminhar de todos os seus habitantes que correm, de um lado para o outro, gastando e ferindo as pedras da calçada.
Tão bom que é morar no campo! Sou só
eu, as perdizes, os melros, os arbustos, as ervas, a relva, a terra, as sábias
pedras, o vento, as nuvens, todos os outros pequenos passarinhos que desconheço
o nome e todas as outras pequenas plantinhas que por ignorância ignoro. Invejo
a forma como as aves correm pelo céu e a serenidade que as plantas me
transmitem. Que sorte! Felizmente não me posso queixar, só me coloco por cima
delas porque tenho cérebro e consigo expressar-me melhor que elas. O sol
queima-me as maçãs do rosto e encandeia-me os olhos claros, curiosamente hoje,
da cor do céu. Despeço-me de todos com a cara apontando para o chão pensando
que vou voltar para o anexo onde lhes dedico minutos e palavras de inveja e
alegria. A Natureza é sem sombra para
dúvidas a nossa maior progenitora!
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